O sósia
Maria Alberta Menéres

Ele, não era ele. Era o igual,
o que sorvera os frutos transparentes
que tombavam do rosto
de outra mãe.

Mas tinha o mesmo andar
a mesma raiva
de concentrar os passos imponentes
no poderoso círculo

Ele não era ele. Era o igual,
mas escondia na alma que restava
uma bala perdida e rebrilhando
ao sol como um pedaço de cristal.

Quando o prenderam e o condenaram
em vez do outro que este sim
salvara,
nunca os olhos pararam de brilhar.

Quem era ele, se assim tomava
sobre os seus ombros o destino alheio
que alheio já não era, mas o seu
próprio destino procurado ou não?

Ele não era ele. Era o igual.
Mas quando a bala o procurou
no peito,
encontrou sua vítima perfeita.


Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Lacerda Editora, 1999 - RJ, Brasil